Campo Grande vive um dos ciclos mais intensos de expansão da construção civil dos últimos anos. A multiplicação de empreendimentos verticais, condomínios horizontais e obras públicas confirma o aquecimento do setor, mas também evidencia um problema estrutural: a falta de mão de obra qualificada nos canteiros.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da Pesquisa Anual da Indústria (Paic), de 2023, mostram que a construção civil segue em crescimento no país. Entre 2020 e 2022, o setor gerou mais de 411 mil novos postos de trabalho no Brasil, um aumento de 21,6% no período. Em Mato Grosso do Sul, o número de trabalhadores também cresceu, passando de pouco mais de 23 mil para cerca de 24 mil empregados formais, embora o estado ainda ocupe posições intermediárias no ranking nacional.
Apesar da expansão, a oferta de profissionais qualificados não acompanha o ritmo das obras. Segundo o engenheiro civil Antônio Brandalize, o cenário atual combina alta demanda com escassez técnica. “Nunca vimos tantas obras ao mesmo tempo e tão poucos profissionais preparados para executá-las com qualidade”, afirma.
Parte desse desequilíbrio está ligada a mudanças no perfil da força de trabalho. A construção civil brasileira ainda convive com altos índices de informalidade, conforme pesquisa PNAD Contínua: em 2021, cerca de 3,8 milhões de trabalhadores atuavam sem carteira assinada, de um total de 7,5 milhões no setor. Ao mesmo tempo, muitos profissionais migraram para atividades como transporte por aplicativo e entregas, reduzindo a disponibilidade de mão de obra especializada.
Custos
Outro fator que pressiona o setor é o aumento dos custos. O Índice Nacional da Construção Civil (Sinapi), também calculado pelo IBGE, aponta que os custos da mão de obra cresceram mais de 7% em 2025, acima da variação dos materiais. Esse encarecimento, somado à baixa qualificação, contribui para um ciclo de retrabalho nas obras.
Na prática, a escassez de profissionais leva à contratação de trabalhadores sem experiência suficiente, o que aumenta a incidência de falhas técnicas. Problemas como infiltrações, trincas estruturais, desalinhamento de alvenaria e erros em instalações elétricas e hidráulicas se tornam mais frequentes e podem elevar o custo final da obra em até 40%.
“O maior risco é o vício oculto. A obra parece perfeita na entrega, mas os problemas aparecem depois, quando o prejuízo já é maior e mais difícil de corrigir”, explica Brandalize.
Diante desse cenário, especialistas apontam que o papel do engenheiro civil ganha ainda mais relevância. A presença constante no canteiro, com fiscalização técnica e acompanhamento das etapas de execução, tem se tornado essencial para garantir qualidade, evitar desperdícios e reduzir riscos futuros.
O crescimento da construção civil em Campo Grande é visto como positivo e estratégico para a economia local, mas o desafio agora é equilibrar expansão com qualificação profissional. Sem esse ajuste, o avanço do setor pode vir acompanhado de custos ocultos que recaem diretamente sobre o proprietário.



















