Um vídeo publicado nas redes sociais colocou em evidência uma dor que, muitas vezes, fica escondida atrás dos jalecos. Nas imagens, um médico-veterinário aparece sentado no chão do consultório, chorando após perder um paciente. A cena viralizou e gerou milhares de mensagens de apoio, mas também abriu uma conversa importante sobre a saúde mental de quem trabalha cuidando da vida dos animais.
A comoção não veio apenas do choro registrado no vídeo. Veio, principalmente, do que ele revela: por trás da imagem afetuosa da Medicina Veterinária, associada ao amor pelos bichos e às histórias de recuperação, existe uma rotina marcada por urgências, decisões difíceis, pressão, culpa e convivência constante com a dor de animais e tutores.
A dor que também faz parte do cuidado
Para Mozarth Vieira, médico veterinário e coordenador do curso de Medicina Veterinária da Estácio, o vídeo tocou tantas pessoas porque mostrou uma realidade em que muitos profissionais vivem em silêncio.
“A sociedade costuma ver o veterinário como alguém tecnicamente preparado para lidar com a morte animal, como se houvesse um interruptor emocional que a gente pudesse simplesmente desligar após o procedimento. Mas não existe esse interruptor”, afirma.
Segundo ele, a perda de um paciente não é apenas o fim de um atendimento. Muitas vezes, o veterinário acompanhou aquele animal por meses ou anos, conhece sua história, seu comportamento e a relação construída com a família. Esse vínculo torna o cuidado mais atento, mas também faz com que a dor diante de um desfecho negativo seja mais profunda.
Do ponto de vista da Psicologia, a repercussão do vídeo também passa pela identificação do público com a vulnerabilidade. Para Maísa Colombo, psicóloga e coordenadora do curso de Psicologia da Estácio, cenas como essa rompem a ideia de que profissionais da saúde precisam ser emocionalmente inabaláveis.
“Quando um profissional aparece emocionado, ele rompe a expectativa social de neutralidade e mostra que também sente dor, apego e frustração. Isso desperta identificação, empatia e reconhecimento emocional”, analisa.
Quando a rotina começa a pesar
Maísa explica que profissões ligadas ao cuidado exigem alta carga emocional, já que envolvem responsabilidade sobre vidas, sofrimento e decisões difíceis. Com o tempo, essa rotina pode gerar desgaste, ansiedade, culpa, sensação de insuficiência e esgotamento psíquico.
Na Medicina Veterinária, esse peso pode ser ainda maior pela idealização da profissão. Como o trabalho costuma ser visto apenas pelo lado do amor aos animais, muitos profissionais sentem que deveriam suportar tudo sem adoecer.
A psicóloga alerta que o sofrimento merece atenção quando passa a interferir na vida pessoal, no trabalho e nas relações. Exaustão constante, irritabilidade, apatia, dificuldade para dormir, culpa recorrente, isolamento, crises de ansiedade e perda de prazer pela profissão estão entre os sinais de alerta.
Para os especialistas, cuidar da saúde mental de profissionais que lidam com vidas, urgências e perdas precisa fazer parte da rotina de trabalho, e não ser tratado como fraqueza. Espaços de escuta, apoio entre colegas, acesso à psicoterapia e ambientes mais acolhedores são caminhos importantes.
Mozarth defende que essa mudança comece ainda na formação. Para ele, estudantes e profissionais precisam entender que pedir ajuda também é uma atitude responsável.
“Sentir não diminui a competência técnica. Significa que você é humano exercendo uma profissão profundamente humana”, diz.
A cena do veterinário chorando, que emocionou tanta gente, expôs a dor de um profissional, mas também abriu espaço para uma conversa necessária sobre empatia, reconhecimento e cuidado emocional em uma profissão dedicada, todos os dias, a cuidar da vida dos outros.




















