O Pantanal pode deixar de ser apenas cenário de filmes para se tornar um território de produção cinematográfica. Essa é a proposta da candidata a deputada federal Gleycielli Nonato Guató (PSOL), que apresenta o BIOCINEMA – Programa Nacional de Cinema dos Biomas Brasileiros, uma política pública que pretende unir cinema, cultura, educação, preservação da memória, meio ambiente, desenvolvimento regional e geração de trabalho e renda. A proposta tem o Mato Grosso do Sul como território-piloto e, a partir do Pantanal, pretende alcançar os seis biomas brasileiros.
A ideia parte de uma constatação: existem histórias, culturas, conhecimentos, músicas, lendas e modos de vida espalhados pelos territórios brasileiros que ainda são pouco conhecidos e, muitas vezes, não encontram condições para serem registrados ou contados por quem realmente vive nesses lugares. Para Gleycielli, o cinema pode ser uma ferramenta de preservação da memória e, ao mesmo tempo, de desenvolvimento.
“O BIOCINEMA é uma proposta de política pública nacional que une cinema, cultura, educação, preservação da memória, meio ambiente e desenvolvimento regional. O interior não é apenas público consumidor de cultura. O interior também produz cultura”.
Nascida em Coxim e ligada ao Pantanal, Gleycielli escolheu o Estado como ponto de partida justamente por conhecer os obstáculos enfrentados por quem produz cultura longe dos grandes centros. O programa prevê uma cadeia permanente de formação, produção, pós-produção, exibição, distribuição e preservação da memória, com o objetivo de fazer do Pantanal um território produtor de cinema. “O Pantanal não pode ser apenas uma paisagem bonita para uma produção que vem de fora filmar. O Pantanal também precisa ser câmera, roteiro, direção, produção e cinema”.
Cinema como trabalho e oportunidade para o interior
Além da dimensão cultural, o BIOCINEMA propõe tratar o audiovisual como uma cadeia econômica capaz de gerar trabalho e renda nos municípios do interior. O programa prevê laboratórios audiovisuais, oficinas, formação profissional, produção de filmes, cineclubes e circuitos itinerantes de exibição, além de mecanismos para estimular a contratação de profissionais locais pelas produções que chegam ao Estado.
A proposta considera que uma produção cinematográfica movimenta diversas áreas, como atuação, roteiro, direção, produção, fotografia, som, figurino, maquiagem, cenografia, transporte, alimentação, hospedagem e pós-produção. Com isso, o objetivo é criar oportunidades para que jovens e profissionais de cidades como Coxim, Corumbá, Aquidauana, Miranda, Bonito e Porto Murtinho possam ser formados e trabalhar nas produções realizadas na própria região.
“Cinema também é trabalho. Queremos formar profissionais no próprio território e criar condições para que eles sejam contratados pelas produções que chegam ao Estado. O objetivo é criar uma cadeia: formar, produzir, contratar, exibir, distribuir e gerar novos projetos”.
Povos indígenas como autores de suas próprias histórias
Um dos pilares do BIOCINEMA é garantir autonomia para que povos indígenas e comunidades tradicionais possam produzir suas próprias obras. A proposta prevê linhas específicas para projetos dirigidos, escritos e produzidos por indígenas, inclusive em línguas indígenas, além de ações voltadas à preservação de conhecimentos e memórias coletivas.
Para Gleycielli, essa mudança é fundamental porque, durante muito tempo, histórias indígenas foram contadas por pessoas de fora das comunidades. “Não queremos apenas produzir filmes sobre os povos indígenas. Queremos garantir que eles tenham condições de produzir filmes sobre si mesmos, sobre suas comunidades, suas memórias, suas línguas, seus conhecimentos e seus territórios”.
A proposta resume esse princípio em uma frase: colocar a câmera nas mãos de quem vive o território. No caso dos povos originários, isso significa que o indígena deixa de ser apenas personagem para assumir também o lugar de autor, diretor, roteirista e produtor da própria narrativa. “Não queremos apenas filmar os povos indígenas. Queremos que os povos indígenas possam filmar o mundo a partir de seus próprios olhos”.
Da experiência no cinema à proposta nacional
A defesa do BIOCINEMA nasce também da experiência pessoal de Gleycielli. Sua trajetória no audiovisual reúne trabalhos como Índia do Rio, em que atuou como roteirista, atriz e produtora de arte; A Voz de Guadakan, como produtora de arte e atriz; Mapago, como roteirista, atriz e produtora executiva; além de produções ligadas à cultura pantaneira e indígena.
Essa experiência é parte da justificativa para defender uma política que descentralize os recursos do setor. O projeto propõe criar, dentro do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), uma linha permanente para projetos relacionados aos biomas brasileiros, com critérios de regionalização e participação territorial. Também prevê mecanismos para estimular profissionais locais, formação e participação das comunidades.
“Eu conheço a dificuldade que existe para produzir cultura e cinema longe dos grandes centros. Sei que existe talento no interior, mas muitas vezes faltam recursos, equipamentos, formação, estrutura e oportunidade”.
O programa prevê ainda ações como o Cinema dos Rios, com possibilidade de utilização do Rio Taquari como território-piloto em Mato Grosso do Sul, e iniciativas de cinema nas escolas, levando estudantes a aprender roteiro, fotografia, gravação, entrevista, edição e produção para registrar suas próprias comunidades e histórias.
Para Gleycielli, o objetivo final é mudar a maneira como o Brasil enxerga seus próprios territórios. “Quero ver jovens do Mato Grosso do Sul trabalhando no audiovisual, cineastas indígenas contando suas próprias histórias, mulheres do interior dirigindo filmes e produções feitas aqui chegando a festivais, escolas, cinemas, televisões e plataformas”.
E resume o que espera que o BIOCINEMA produza no futuro: “Quero que uma criança que cresça no Pantanal olhe para uma tela e reconheça a própria história. Que ela possa pensar: ‘Eu também posso fazer cinema. A minha história também importa’”.
A proposta do BIOCINEMA prevê atuação em Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa, tendo o Mato Grosso do Sul como ponto de partida. O projeto pretende transformar os biomas em territórios de produção audiovisual, fortalecendo cultura, memória, formação profissional, autonomia dos povos e desenvolvimento regional.




















