Na APA Baía Negra, Pantanal de Ladário (MS), 68 pessoas acompanharam uma atividade que vem ganhando espaço nas estratégias de prevenção aos incêndios florestais no bioma: o uso planejado e controlado do fogo para reduzir o material seco acumulado na vegetação, antes do período mais crítico dos incêndios.
A atividade aconteceu no dia 18 de junho e marcou o encerramento da segunda edição dos Dias de Campo: Resgate do Uso Tradicional do Fogo no Pantanal, iniciativa realizada pelo Instituto Terra Brasilis por meio do projeto Vidas e Vozes Kadiwéu, em parceria com a Petrobras, através do Programa Petrobras Socioambiental.
Quatro parcelas dentro da APA Baía Negra foram preparadas para o treinamento, totalizando cerca de cinco hectares. Duas delas foram selecionadas para receber fogo e, em uma área, aproximadamente metade da vegetação queimou. Na outra, o capim ainda apresentava umidade, o que impediu a propagação das chamas.
Para os organizadores, a situação serviu como uma demonstração prática de um dos princípios centrais do manejo integrado do fogo. “Aqui conseguimos entender quando usar o fogo e quando as condições ambientais indicam que ele não deve avançar”, explicou Reinaldo Lourival, diretor executivo do Instituto Terra Brasilis e idealizador do evento.
“Apesar de não termos queimado toda a área que precisava reduzir o material combustível, acredito que atingimos o objetivo do treinamento, que foi envolver pessoas de diferentes áreas e profissões para conhecerem como funciona o manejo integrado do fogo e entenderem o que fazemos nos territórios”, afirma Rubens Ferraz, brigadista da Brigada Kadiwéu 1, da aldeia Alves de Barros, em Porto Murtinho (MS).
A atividade acontece depois de 2024 registrar mais de 2 milhões de hectares queimados no Pantanal, segundo dados do Lasa/UFRJ, reforçando o debate sobre estratégias de prevenção antes do período mais crítico da seca. Entre os participantes, estava o brigadista Terena Valdinei José, da Terra Indígena Cachoeirinha, em Miranda (MS).
Para ele, a experiência vai retornar para o território em forma de aprendizado. “Estávamos ansiosos para chegar lá e botar fogo, mas não deu pra queimar tudo, e isso acontece. Nós, Terenas, estamos levando desse encontro uma experiência incrível para as nossas comunidades, foram muitos aprendizados e trocas de experiências ao longo dessa semana.”
A atividade prática reuniu representantes de dez brigadas indígenas e comunitárias de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Roraima, além de pesquisadores brasileiros e portugueses que trabalham com manejo integrado do fogo.
A APA Baía Negra foi escolhida justamente por reunir desafios presentes em diferentes regiões do Pantanal. A área recebe visitantes, pescadores e moradores locais ao longo do ano e exige ações permanentes de prevenção.
“Nossa comunidade e nossa brigada se sentem privilegiadas de receber um trabalho como esse. Vivemos em uma área extensa e precisamos estar preparados. Esse tipo de atividade ajuda tanto nossos brigadistas quanto a população a entender melhor a importância da queima prescrita”, afirma Virgínia Paz, presidente da APA Baía Negra e chefe da brigada comunitária local.
Segundo ela, parte do trabalho da brigada acontece fora dos períodos de incêndio. “Aqui é uma área de preservação, mas também de lazer. Recebemos pessoas para pescaria e outras atividades. Nosso cuidado é orientar sobre o uso do fogo e evitar que um descuido acabe provocando um incêndio.”
Durante os debates realizados ao longo do encontro, que aconteceu de 14 a 19 de junho em Corumbá e Ladário (MS), os brigadistas também discutiram avanços e desafios do manejo integrado do fogo no Pantanal. Entre os resultados apontados estão a redução de focos de incêndio em diversas regiões, a formação de brigadas comunitárias, a ampliação do diálogo com moradores e o fortalecimento das ações de educação ambiental.
Ao mesmo tempo, os participantes destacaram dificuldades que ainda persistem, como equipamentos que chegam depois da janela ideal para prevenção, a falta de apoio logístico e os obstáculos para acessar determinadas áreas durante as ações de prevenção e combate.
A brigadista Neudines Felix, da brigada Taunay-Ipegue, em Aquidauana (MS), chamou atenção para outro tema debatido durante o encontro: a participação das mulheres, tema que deve ganhar destaque na próxima edição do evento.
“Infelizmente ainda vemos poucas mulheres atuando no manejo integrado do fogo. Eu as considero muito atentas e preparadas, acredito que precisamos de mais oportunidades para que elas possam ocupar esses espaços e mostrar trabalho.”
Segundo Angélica Guerra, coordenadora do projeto Vidas e Vozes Kadiwéu, a diversidade de participantes foi um dos principais resultados desta edição.”Foram meses de preparação para construir um encontro que reunisse brigadistas indígenas, comunitários, pesquisadores, bombeiros e gestores públicos em torno das
mesmas perguntas. Conseguimos adaptar ao Pantanal o modelo internacional TREX e criar
um espaço de troca entre diferentes experiências.”
A organização já iniciou articulações para a próxima edição. “Queremos realizar uma edição inspirada no WTREX, modelo internacional voltado à participação de mulheres no manejo integrado do fogo, em um evento feito só para elas. A ideia é fortalecer a formação, a troca de experiências e a liderança feminina nessa área,
trazendo para o Pantanal uma discussão que já acontece em outros países”, afirma Angélica.




















