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ARTIGO: O fantasma da redação do Diário da Serra

Redação Capivara News by Redação Capivara News
8 de Setembro de 2025
in Opinião, Trabalho, Últimas Notícias
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ARTIGO: O fantasma da redação do Diário da Serra

Wilson Aquino - Jornalista e Professor

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Por: Wilson Aquino*

Durante décadas, desde os anos 60, o Diário da Serra, de Campo Grande –Fundado em 29/05/68 por Assis Chateaubriand – fez história no jornalismo sul-mato-grossense (então Mato Grosso uno), como parte do poderoso grupo Diários Associados, que reunia veículos de comunicação em todo o país. Foi um berço de grandes profissionais, que imprimiam talento, coragem e dedicação em cada edição, até seu encerramento, no dia 15 de novembro de 1998, três anos depois de vendido para o empresário e jornalista Antônio João Hugo Rodrigues, um dos donos do principal concorrente, o Correio do Estado.

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Entre as décadas de 70 e 90, a disputa entre os dois jornais lembrava os eternos clássicos Operário X Comercial ou até mesmo um Fla X Flu: cada manchete, cada capa, cada reportagem era um embate palmo a palmo. A política e o esporte eram as editorias mais disputadas, mas em todas as áreas havia o empenho de vencer o concorrente na corrida pelo furo de reportagem.

Eram tempos de jornalistas aguerridos, que cultivavam fontes estratégicas tanto na esfera pública quanto na privada. Cada repórter vivia a adrenalina da notícia e, no dia seguinte, corria cedo às bancas de revista ou à redação para ver sua matéria impressa, comparando imediatamente com a cobertura do “adversário”. Esse duelo silencioso era combustível para o aperfeiçoamento constante.

A concorrência, no entanto, era saudável. Longe de enfraquecer o jornalismo local, fortalecia-o. Quem mais ganhava era o leitor, que recebia informação de qualidade, análises aprofundadas e ampla cobertura dos fatos que moldavam a vida política, econômica e cultural da cidade e do Estado, que se dividiu em 1977, com a criação do Estado de Mato Grosso do Sul naquele ano. Cada edição era uma espécie de prestação de contas à sociedade, que, por sua vez, alimentava o hábito de acompanhar de perto os acontecimentos e de formar opinião.

Essa disputa editorial também obrigava as redações a inovarem. O esforço para publicar reportagens exclusivas, trazer entrevistas inéditas e explorar novos formatos era constante. O jornalismo, assim, não se acomodava: vivia em ebulição, sempre em busca de oferecer ao público algo a mais. O trabalho coletivo, somado ao orgulho de vestir a camisa de um veículo, transformava repórteres, fotógrafos, diagramadores e editores em verdadeiros operários da notícia.

O Diário da Serra, onde comecei e atuei por muitos anos, buscava modernizar-se nos processos de impressão, que evoluiram mais rapidamente, enquanto a redação ainda preservava o charme barulhento das Remington, Olivetti e Lexicon. Ao cair da tarde, quando todas as editorias se apressavam para fechar os textos do dia, o ambiente virava uma sinfonia única. O tilintar das máquinas de escrever formava uma orquestra sem maestro, mas com um som inconfundível: o som da notícia nascendo.

Foi nesse cenário vibrante que, em meados dos anos 80, apareceu um novo vigilante noturno do jornal, de nome Adelson. Caberia a ele cuidar do prédio da Rua Engenheiro Roberto Mange, das 18h às 6h da manhã seguinte. Em seu primeiro dia, ficou impressionado com a velocidade com que repórteres transformavam ideias em palavras, batendo forte nas teclas, como se cada matéria fosse um combate contra o tempo.

À noite, porém, a cena mudou radicalmente. Após as 21h, a redação mergulhou em um silêncio absoluto. Adelson, sozinho em sua guarita, percorria o prédio para usar a copa ou o banheiro. E, numa dessas idas e vindas, na madrugada desse primeiro dia, decidiu novamente atravessar a redação que tanto o havia encantado algumas horas antes.

Acendeu as luzes. Caminhou entre as mesas alinhadas, agora imóveis. Tudo estava quieto demais. Por alguns instantes sentiu falta daquela sinfonia das máquinas em pleno tilintar como testemunhara algumas horas antes. Foi quando divagava nessas lembranças que o improvável aconteceu, rompendo o silêncio absoluto daquela sala: uma máquina de escrever começou a datilografar sozinha.

As teclas batiam rápidas, o papel rolava, palavras se formavam sem que houvesse alguém diante dela. Adelson, paralisado, sentiu o corpo gelar. Seu coração acelerou, os pelos se eriçaram, as pernas simplesmente se recusavam a obedecê-lo. Ele assistia, incrédulo, àquela cena de puro assombro: a redação estava vazia, mas o som da datilografia ecoava vivo e ele vendo tudo, imóvel.

Com esforço, conseguiu recuar e, trêmulo, correu de volta à guarita. Passou o resto da madrugada ali, em estado de choque, esperando a manhã chegar. Às 6 horas abandonou o posto decidido: nunca mais voltaria àquele jornal mal-assombrado.

No dia seguinte, comunicou à empresa de segurança em que trabalhava, que não iria mais retornar ao prédio, por conta do fantasma da redação. A notícia se espalhou rapidamente e deu muito o que falar entre os jornalistas e funcionários, que deram muitas risadas pois o que Adelson não sabia e a direção da empresa de segurança também não, era que o que fora ativado naquela noite e que assombrou o segurança foi o revolucionário Telex que entrava em operação a qualquer momento, trazendo notícias e informações de centrais de outros Estados.

Adelson nunca mais voltou. Para ele, não havia explicação técnica que desfizesse a cena presenciada: a máquina datilografando sozinha, como se guiada por mãos invisíveis de um fantasma na redação do Diário da Serra.

*Jornalista e Professor

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