Os sabores, técnicas e receitas de Okinawa, que por muito tempo ficaram restritos às casas das famílias de imigrantes e às festas organizadas por eles, estão agora reunidos, pela primeira vez, em um livro. “Kwachi Sabirá – Culinária, histórias e receitas dos primeiros imigrantes okinawanos em Campo Grande” será lançado neste sábado (28), a partir das 18 horas, na Associação Okinawa de Campo Grande. A obra é um marco para uma cidade que tem a segunda maior comunidade okinawana do País, e onde uma cultura muito própria se formou a partir da mistura de hábitos dos imigrantes e dos habitantes locais – o maior representante dessa fusão é o famoso sobá, patrimônio imaterial de Campo Grande.
Apesar de a culinária japonesa ser muito conhecida e difundida no Brasil e de Okinawa ser atualmente parte do Japão, a ilha por muito tempo foi um reino independente, com história e cultura próprias e, portanto, também receitas próprias. “Campo Grande teve uma imigração japonesa atípica, porque a maioria dos imigrantes que vieram para cá eram de Okinawa, cerca de 70%. A cultura de Okinawa é diferente porque não era parte do Japão, até a língua era diferente, e no livro usamos os nomes na língua de Okinawa, como uma forma de resgatar esses termos”, explica Renata Kawano, uma das autoras.
O processo de produção da obra levou cerca de um ano e contou com a colaboração de vários integrantes da comunidade, mas especialmente dos autores Marcel Arakaki Asato, Dirce Kimié Guenka, Nilton Kiyoshi Shirado e Renata Naomi Otto Kawano. “Este livro nasceu da necessidade urgente de preservar, registrar e transmitir a rica herança culinária trazida pelos milhares de imigrantes okinawanos que chegaram a Campo Grande há mais de um século. Eles trouxeram histórias, danças, músicas, receitas de comidas simples e uma forma de cozinhar que sustentava o corpo e as memórias da terra natal”, resume Marcel Arakaki.
A obra representa um momento histórico para a comunidade, de preservação de uma parte da cultura que estava aos poucos se perdendo, com a partida dos membros mais antigos. Três desses membros da comunidade okinawana de Campo Grande – Cândida Adania, Jorge Tetsu Taira e Nobukatsu Higa – foram, inclusive, entrevistados pela equipe do livro, e contaram detalhes dos hábitos alimentares dos primeiros imigrantes, suas histórias, lembranças e experiências de vida. Todos têm mais de 90 anos, e seus pais e familiares vivenciaram as primeiras décadas da imigração na cidade.
Entre as principais receitas do livro estão: o castirá, o bolo de rapadura okinawano que é um dos pratos mais conhecidos entre a comunidade, mas que, os autores descobriram durante a pesquisa do livro, já quase não é consumido na própria ilha de Okinawa nem entre imigrantes okinawanos de outras regiões; o andagui, um bolinho doce que lembra o brasileiro bolinho de chuva, mas tem textura própria; o arroz vermelho, símbolo de prosperidade e boa sorte, presente em festas de famílias okinawanas como aniversários e comemorações; a sopa de cabrito, antigamente reservada para ocasiões especiais, hoje em dia servida anualmente na festa junina da Associação Okinawa de Campo Grande; além, claro, do famoso sobá, cuja versão preparada por aqui é bem diferente da consumida na ilha de Okinawa.
Foi a visita de alguns chefs de cozinha de Okinawa, uns anos atrás, que despertou a vontade de fazer o livro, quando os autores perceberam que alguns pratos já eram preparados aqui de forma muito diferente de suas versões “originais”. Dirce Kimié Guenka e Nilton Kiyoshi Shirado são Embaixadores da Boa Vontade de Okinawa, e a obra contou com o apoio do governo de lá para a sua produção e impressão, tendo seu conteúdo publicado em português, inglês e japonês, possibilitando alcançar também imigrantes de fora do Brasil.
Serviço: O lançamento do livro “Kwachi Sabirá – Culinária, histórias e receitas dos primeiros imigrantes okinawanos em Campo Grande”, publicado pela Life Editora, será realizado neste sábado, dia 28 de março, a partir das 18 horas, na Associação Okinawa de Campo Grande, localizada na Rua dos Barbosas, nº 110 – Amambai. Evento gratuito e aberto ao público. Haverá degustação de alguns dos pratos registrados no livro, mediante disponibilidade.




















