A guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã atingiu, em seu terceiro dia, outros países do Oriente Médio, abrindo caminho para uma guerra duradoura e custosa para o mundo. Muito diferente do conflito de 12 dias entre os mesmos atores em 2025. Segundo analistas ouvidos pelo Estadão, ao ampliar o conflito Teerã busca elevar os custos militares e econômicos a níveis globais.
Entre domingo, 1º, e está segunda-feira, 2, Teerã bombardeou bases americanas no Golfo Pérsico, além de ter retaliado contra cidades israelenses. Os combates também se expandiram para o Líbano, onde a milícia xiita Hezbollah, um aliado iraniano, disparou foguetes contra Israel, fazendo com que Tel-Aviv respondesse contra Beirute. As redes de energia do Catar também se tornaram alvos.
No início da noite de segunda (no horário de Brasília), Teerã lançou uma nova ameaça com efeitos extensos sobre a economia global: “Qualquer navio que tentar passar pelo Estreito de Ormuz será incendiado”, afirmou o brigadeiro-general Ebrahim Jabbari em declarações divulgadas pela mídia iraniana.
Mais cedo, três jatos americanos acabaram abatidos pelas defesas aéreas do Kuwait, no que os militares dos EUA classificaram como um “aparente incidente de fogo amigo”. O governo britânico, por sua vez, disse ter impedido um ataque com drones contra sua base aérea no Chipre, que tem auxiliado o esforço de defesa antiaérea israelense.
Em resposta, os EUA disseram que enviarão mais caças para o Oriente Médio, com o objetivo de destruir a capacidade do Irã de lançar ataques balísticos e navais contra israelenses e ativos americanos na região. Washington fala em cinco semanas de conflito, podendo durar mais.
“A estratégia iraniana muito provavelmente é duas nesse caso. Primeiro, aumentar o custo econômico da guerra, atacando países que são grandes hubs de turismo e econômicos”, afirma o historiador Filipe Figueiredo, apresentador do podcast Xadrez Verbal e colunista do Estadão.
“A segunda estratégia, que está ligada a essa presença de bases dos EUA nesses países, é muito provavelmente tentar rachar o apoio interno aos EUA, fazer com que esses países, devido aos ataques iranianos, por exemplo, decidam não mais apoiar as ações americanas”, continua.
“A estratégia do Irã provavelmente evoca a estratégia do Saddam Hussein em 1991, e naquele momento não deu certo. Dificilmente vai dar agora”, completa Figueiredo. Em 1991, o líder do Iraque tentou transformar a Guerra do Golfo em um conflito longo e desgastante, forçando uma solução diplomática, mas o plano falhou.
A possibilidade também é endossada pelo professor de relações internacionais da FGV e da FAAP Vinícius Vieira. “Para usar uma linguagem simples, é uma lógica de ‘cair, mas cair atirando’, inclusive nos vizinhos, o que abre esse espaço para isso que nós estamos testemunhando que é uma guerra já regional e generalizada”.
“Se outros atores são tragados para isso, os custos e as pressões eventualmente da comunidade internacional contra o (Donald) Trump vão se ampliar”, completa.
O regime iraniano respondeu aos ataques americanos e israelenses bombardeando bases militares dos EUA e locais estratégicos, como o aeroporto de Dubai, que chegou a atingir o luxuoso hotel Burj Al Arab. Desde então, voos foram cancelados e o espaço aéreo do Oriente Médio se tornou perigoso.
“Os custos econômicos da guerra tendem a se intensificar, até porque o Irã anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz. É um fechamento que pode eventualmente ser contestado pela força militar por parte dos EUA, o que levaria a uma outra escalada do conflito, mas o cenário é de um aumento de custos. Um cenário que não é tão catastrófico quanto poderia ser. Em termos mais coloquiais, está ruim, mas poderia estar pior”, afirma Filipe Figueiredo.
Teerã ameaçou incendiar qualquer navio que tentar passar pelo Estreito de Ormuz. O estreito, que fica entre a Península Arábica e o Irã, é uma artéria vital para o comércio mundial, principalmente para o transporte de petróleo. Cerca de 20% do petróleo global passa por ali. O preço da commodity disparou.
“Também atacaremos oleodutos e não permitiremos que uma única gota de petróleo saia da região”, disse o brigadeiro-general Ebrahim Jabbari, acrescentando que “os preços do petróleo chegarão a US$ 200 nos próximos dias”.
“Existe uma estratégia iraniana aqui que não é simplesmente expandir a guerra por vingança, porque muitos desses países têm bases militares dos EUA. O objetivo é transformar uma guerra de EUA e Israel contra o Irã em um problema regional e global. Isso aumenta drasticamente o custo político e econômico para os adversários, forçando-os a negociar”, endossa Vitelio Brustolin, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador de Harvard.
“A lógica central é: o Irã é mais fraco do que Israel e EUA, isso ficou bastante claro na Guerra dos Doze Dias no ano passado. Então a estratégia do Irã não é vencer militarmente em combate direto, mas sim tornar a guerra impossível de se controlar. É um elemento de dissuasão, expandir o conflito para criar dissuasão e profundidade estratégica e assim pressionar os oponentes a uma negociação”, argumenta o professor.
Sem tempo para acabar
Nesta segunda, o presidente americano, Donald Trump, disse que a guerra deve se arrastar por quatro a cinco semanas, salientando que as tropas americanas têm capacidade de lutar por mais tempo. Seu secretário de Defesa, Pete Hegseth, porém, evitou dar um prazo para o conflito.
No domingo, Trump havia dito que a nova liderança do Irã – após a morte de Ali Khamenei – estava disposta a negociar, o que foi rapidamente descartado por Teerã. “Não negociamos com os EUA”, escreveu o chefe de Segurança do Irã, Ali Larijani.
A tendência é que o conflito se torne mais duradouro do que Trump projeta. “Não tenho tanta certeza assim se de fato a questão será resolvida num curto intervalo de tempo, ainda que as defesas iranianas e a capacidade de ataque venham a ficar escassas nesse período”, avalia Vinícius Vieira. ”Até porque, embora muitos sejam contra o regime, muitos também são contra os Estados Unidos. No Irã, nós temos algo intrinsecamente relacionado à existência da República Islâmica, que é o anti-americanismo.”.
Estadão Conteúdo.




















