Uma trajetória construída na literatura, no cinema, na educação e na defesa da cultura dos povos originários fez com que o nome de Gleycielli Nonato Guató passasse a integrar, antes mesmo do início oficial da campanha eleitoral, a lista de lembranças espontâneas dos eleitores de Mato Grosso do Sul.
A artista, escritora e liderança indígena do povo Guató foi a única representante indígena citada na pesquisa espontânea de intenção de voto para deputada federal realizada pela Ranking Comunicação e Pesquisas entre os dias 18 e 23 de julho, que ouviu 2.000 moradores com 16 anos ou mais em 30 municípios do estado. A amostragem conta com um intervalo de confiança de 95% e margem de erro de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos.
Em um estado que concentra a terceira maior população indígena do Brasil, o levantamento chama atenção para o crescimento da representatividade dos povos originários no debate público e evidencia uma trajetória construída muito antes da disputa eleitoral.
Nascida em Coxim, Gleycielli pertence ao povo Guató, uma das etnias originárias historicamente ligadas ao Pantanal. Licenciada em Artes e pós-graduada em Literatura, Cultura e Artes Cênicas, iniciou sua carreira como professora e, ao longo de quase duas décadas, transformou a arte em instrumento de fortalecimento da identidade indígena e de promoção da cultura sul-mato-grossense. É escritora, atriz, cineasta, produtora cultural, radialista, apresentadora de televisão e articuladora de projetos voltados à literatura, ao audiovisual e à formação cultural.
Autora de obras como Índia do Rio, Vila Pequena, A Revolução de Catí Guató e Corixos dos Bichos — livro adquirido pelo Ministério da Educação para distribuição em escolas públicas de todo o país —, Gleycielli também construiu uma trajetória no audiovisual, participando como atriz, roteirista, produtora e produtora executiva de filmes e documentários voltados à preservação da memória e da cultura dos povos originários.
Ao receber a notícia de que seu nome havia sido lembrado espontaneamente pelos entrevistados, Gleycielli conta que a informação chegou como uma surpresa, mas também como a confirmação de que a caminhada construída ao longo dos anos começa a ser reconhecida pela população.
“Foi uma surpresa muito positiva. A gente acredita no trabalho que está sendo construído e na força dessa caminhada coletiva, mas ver meu nome lembrado espontaneamente mostrou que essa história começou a alcançar as pessoas. Para mim, significa que estamos levando muitas vozes para perto dos espaços onde as decisões são tomadas”.
Para ela, a lembrança espontânea vai muito além do reconhecimento individual. “Quando uma pessoa indígena chega, ela não chega sozinha. Chegam junto o nosso povo, a nossa comunidade, a nossa cidade e os povos originários do Pantanal. Ninguém faz essa caminhada sozinho. Ela é construída por muitas mãos, e isso traz uma responsabilidade muito grande”.
Gleycielli acredita que o resultado também demonstra o desejo da população por uma representação mais diversa nos espaços de decisão.
“Acredito que essa lembrança representa o desejo de uma política que acolha mais vozes. Não apenas dos povos originários, mas também das mulheres, dos professores, dos artistas, das pessoas da cultura, da educação e de quem vive a realidade de Mato Grosso do Sul. As pessoas querem se sentir representadas por quem conhece seus desafios e suas histórias”.
Segundo ela, o levantamento fortalece ainda mais o compromisso de construir uma campanha baseada no diálogo e na participação coletiva.
“Esse resultado aumenta nossa responsabilidade, mas também reforça nossa vontade de construir uma campanha coletiva, diversa e comprometida em levar para os espaços de decisão as vozes de quem vive o nosso estado todos os dias”.
Além da atuação artística, Gleycielli preside o Fórum Estadual de Cultura de Mato Grosso do Sul (FESC-MS), coordena iniciativas voltadas à literatura e à formação artística, integra o coletivo nacional Mulherio das Letras e atua em movimentos de fortalecimento das mulheres e dos povos originários. Ao longo da carreira, recebeu prêmios e homenagens por sua contribuição à cultura brasileira e à valorização da identidade indígena.




















