O Desenrola 2.0, nova etapa do programa federal de renegociação de dívidas, chega com a promessa de aliviar o sufoco financeiro de milhões de brasileiros. Em Mato Grosso do Sul, porém, a iniciativa já enfrenta críticas contundentes do setor lojista, que vê na proposta uma solução paliativa diante de um problema muito mais profundo.
De acordo com a Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas de Mato Grosso do Sul (FCDL-MS), o cenário é preocupante: 70,3% das famílias do estado estão negativadas e cerca de 40% encontram-se totalmente inadimplentes. Os números refletem uma realidade de descontrole individual e apontam para um desequilíbrio estrutural.
A presidente da entidade, Inês Santiago, resume o diagnóstico de forma direta. “O Brasil não enfrenta apenas um problema de dívida, mas ele enfrenta um problema estrutural de crédito”, afirma. Segundo ela, o alto custo das principais linhas de financiamento cria um ambiente propício para o endividamento recorrente. “O consumidor brasileiro convive com taxas elevadíssimas. Isso gera um ciclo muito difícil de romper. A pessoa renegocia, ganha um fôlego, volta a consumir e rapidamente se endivida novamente.”
Esse movimento é descrito como um “ciclo vicioso”. O consumidor limpa o nome, mas retorna à inadimplência pouco tempo depois, já que as condições que levaram à dívida permanecem intactas. “O crédito continua caro. O ambiente continua o mesmo”, reforça a presidente.
Na avaliação da FCDL-MS, o peso dos juros e da carga tributária agrava ainda mais a situação. “O consumidor não está pagando apenas aquilo que ele comprou, mas principalmente uma altíssima taxa de juros e uma carga tributária que contribui grandemente para esse endividamento”, pontua Inês. Para ela, esse cenário reduz drasticamente o poder de compra e impacta diretamente o comércio.
O reflexo é imediato na economia. “Um consumidor endividado consome menos. O poder de compra dele é muito menor. E isso desacelera toda a economia brasileira”, afirma. Em um estado onde mais de dois terços das famílias estão com restrições no nome, o efeito se espalha por toda a cadeia produtiva.
Embora reconheça a importância do programa, a presidente faz uma ressalva central. “O Desenrola é necessário, sim, mas ele atua no efeito, ele não ataca a causa do nosso problema.” Para a entidade, a política pública precisa ir além da renegociação e enfrentar pontos estruturais. “Se o Brasil quiser realmente enfrentar o endividamento, precisa discutir o custo do crédito e a alta carga tributária.”
A crítica ganha força ao apontar que medidas emergenciais, se não acompanhadas de mudanças mais profundas, tendem a se repetir sem resolver o problema de forma definitiva. “Renegociar não pode ser a política permanente. Precisamos evitar que a dívida se forme e, mais do que nunca, evitar que este consumidor volte à inadimplência, como tem ocorrido nos últimos anos”, conclui Inês Santiago.




















