Quem circular por Campo Grande nesta quarta-feira (30) poderá se deparar com uma mensagem provocativa espalhada por diversos pontos da cidade. Durante a madrugada, o Coletivo Geni instalou lambe-lambes com a frase “Não vote em branco, vote em mulher preta”, uma intervenção urbana que propõe uma reflexão sobre o voto em branco e a presença de mulheres negras nos espaços de decisão.
Ao lado da frase que questiona a representação de mulheres negras na política, a imagem de Nossa Senhora Aparecida amplia a provocação proposta pelo coletivo. A escolha da imagem dialoga com um debate que voltou a ganhar espaço no cenário político nacional às vésperas do feriado de 12 de outubro. A declaração do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro de que, caso eleito, iria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo” também reacendeu o debate sobre religião e política. A fala gerou preocupação entre setores católicos e, nas redes sociais, acabou sendo associada a um antigo projeto de lei apresentado em 2007 pelo então deputado Victório Galli, que propunha alterar a referência a Nossa Senhora Aparecida como “padroeira do Brasil”.
Para Ladi Souza, cofundadora do Geni e candidata a deputada estadual pelo PT (13067), a escolha da imagem se dá não só pela necessidade de pontuar a “esquecida” negritude da santa, mas também de tratar da religiosidade com o devido respeito sem transformar a fé em instrumento de disputa ou de desqualificação de outras crenças.
“Esse debate recente mostra como a fé ocupa um espaço muito importante na vida das pessoas e também como precisamos ter responsabilidade ao falar sobre religião. Nossa Senhora Aparecida faz parte da história e da fé de milhões de brasileiros, assim como as religiões de matriz africana fazem parte da história e da cultura do nosso país. Defender a liberdade religiosa significa respeitar todas essas manifestações, sem que nenhuma fé seja usada para diminuir ou atacar a outra. Para além disso, mulheres e pessoas negras foram as que mais esperaram para ter voz nas urnas, votar é honrar essa conquista”, afirma Ladi.
Um dado importante é que na eleição de 2022, para a Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, foram eleitas 24 pessoas. Dessas, apenas três se autodeclararam negras (pretas ou pardas), sendo todas homens.
Representação que chega aos espaços de decisão
A frase “Não vote em branco, vote em mulheres pretas” sintetiza o questionamento central da intervenção: a presença de mulheres negras nos espaços de poder e decisão. A ação busca levar para as ruas uma discussão sobre quem ocupa esses espaços e sobre a diversidade de experiências que chega — ou não — às instituições políticas.
A pauta também está presente nas propostas apresentadas por Ladi Souza para a Assembleia Legislativa. Entre as medidas estão o enfrentamento ao racismo estrutural e institucional, ações afirmativas em bolsas, qualificação, inovação, empreendedorismo e políticas voltadas à permanência de estudantes quilombolas na UEMS, incluindo bolsas, moradia, transporte, alimentação, apoio acadêmico e incentivo à iniciação científica.
Sobre o Coletivo Geni
O Grupo de Estudos sobre Negras Intelectuais (Geni), foi criado em Campo Grande em 2020 por Ladielly de Souza (Ladi), Ana Raile, Amanda Silva e Letícia Maris, então estudantes de Psicologia da UCDB. Desde sua criação, o grupo desenvolve atividades relacionadas à produção intelectual de mulheres negras, direitos humanos, cultura, raça e partcipação social.
Ao longo de sua atuação, o coletivo também participou de ações culturais e de mobilização. Em 2024, promoveu um ato em memória de Marielle Franco, com discussões sobre direitos humanos e violência contra mulheres negras. Em 2026, esteve entre os grupos envolvidos na realização do Julho das Pretas – Vozes de Dandara, iniciativa que reuniu manifestações artísticas e atividades voltadas ao protagonismo de mulheres negras.
A discussão sobre liberdade religiosa também integra esse percurso. Em 2023, o Geni participou das discussões realizadas em Mato Grosso do Sul para a construção do Plano Nacional da Juventude Negra Viva, que incluiu entre as demandas apresentadas por jovens negros questões relacionadas ao racismo religioso e à liberdade para as religiões de matriz africana.
A proposta do Geni com a intervenção atual não é entregar uma resposta pronta, mas que possa abrir espaço para quem passar por ela e provoque reflexão sobre representação política, identidade, fé, racismo religioso e a diversidade que compõe a sociedade.




















