Da sala de música do Instituto Moinho Cultural Sul-Americano, na fronteira entre Brasil e Bolívia, para palcos e experiências que ampliam seus horizontes profissionais. A violinista Analice Martins e o violoncelista Valério Garcia vivem, em momentos diferentes de suas trajetórias, novas oportunidades construídas a partir da formação musical iniciada em Corumbá. Em agosto, Analice foi convidada pela segunda vez para integrar a Orquestra Filarmônica da Igreja Apostólica (OFIA), em São Paulo. Em setembro, Valério, formado pelo Moinho e atualmente integrante da OSB Jovem, representará o Brasil em uma residência artística internacional no Uruguai.
As duas histórias ajudam a revelar a continuidade de um processo que começa na formação e pode se desdobrar em diferentes caminhos profissionais. No caso de Analice, a trajetória segue ligada ao próprio Moinho Cultural, onde hoje atua como auxiliar de professores no Núcleo de Música, além de ser arquivista e violinista tutti da Orquestra de Câmara do Pantanal.
Natural de Corumbá, Analice iniciou os estudos de violino no Moinho Cultural aos 12 anos. Ao longo da formação, participou de residências artísticas com a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) e integrou turnês ao lado da Nova Orquestra, no Rio de Janeiro, experiências que contribuíram para ampliar sua vivência como instrumentista.
Em agosto, ela voltou a São Paulo para participar, pela segunda vez, como convidada da OFIA. A apresentação ocorreu no dia 16, após um período de preparação que incluiu estudo remoto do repertório e ensaios presenciais no dia da apresentação. “Voltar à OFIA pela segunda vez foi muito especial, porque não é só repetir uma experiência, é perceber o quanto eu evoluí desde a primeira vez. Cada vez que sou chamada para tocar fora de Corumbá, sinto que levo comigo tudo que aprendi no Moinho Cultural, e isso me dá confiança para seguir crescendo como musicista”, conta Analice.
Para Márcia Rolon, diretora artística do Instituto Moinho Cultural Sul-Americano, a trajetória de Analice também evidencia a importância de criar oportunidades para que os próprios participantes possam permanecer vinculados ao processo de formação. “A trajetória da Analice é exatamente o que buscamos construir aqui: um processo em que quem se forma no Moinho também passa a formar. Ela toca, ensina, cuida do acervo da orquestra e ainda encontra espaço para viver experiências como a da OFIA. Isso mostra que a formação continuada não é só técnica, é sobre criar raízes que sustentam a instituição e, ao mesmo tempo, abrem espaço para quem está começando agora”, afirma Márcia.
A história de Valério Garcia apresenta outro desdobramento possível dessa formação. Corumbaense, ele iniciou os estudos no Moinho Cultural em 2012, passou pela Orquestra do Instituto e aprofundou sua trajetória no violoncelo até se tornar professor do instrumento e chefe do naipe de violoncelos da Orquestra de Câmara do Pantanal. Em 2018, conquistou o segundo lugar no Prêmio Campo Grande de Música de Concerto, na categoria Solista Juvenil, participou de intercâmbios com violoncelistas da OSB e integrou diversas turnês ao lado da Nova Orquestra.
Esse intercâmbio abriu caminho para uma nova etapa em sua formação. Valério foi aprovado para uma residência de longa duração com a OSB e morou no Rio de Janeiro por seis meses vivendo essa experiência. Ao retornar ao Moinho Cultural, seguiu por mais seis meses fortalecendo sua atuação como professor e músico da Orquestra de Câmara do Pantanal, até se inscrever para a prova de seleção da OSB Jovem. Aprovado, hoje reside no Rio de Janeiro como integrante da orquestra.
A experiência como professor e chefe de naipe, segundo Valério, também foi importante para sua formação. “Ter exercido essas duas funções me ajudou a ter muita responsabilidade, paciência e compreensão. Como chefe de naipe minha obrigação era ter tudo preparado em mãos e ajudar os companheiros em questões técnicas e interpretativas. Já como professor me ensinou a ter paciência, respeito e entender o tempo de evolução de cada criança, e minha evolução também, pois nós aprendemos muito ensinando”, afirma.
Agora, o músico se prepara para uma nova etapa internacional. Em setembro, Valério representará o Brasil na Residência Artística de Formação Musical “La Orquesta”, que reúne músicos do Brasil, Uruguai e Argentina no âmbito do Programa Iberorquestras Juvenis, entre os dias 21 e 28 de setembro, em Punta del Este, no Uruguai.
A indicação partiu do próprio Moinho Cultural, após a Funarte procurar a instituição em busca de um violoncelista de excelência para representar o país. O Moinho apresentou o histórico artístico de Valério e vídeos de sua atuação, resultando em sua aprovação pela organização do programa. A participação também foi autorizada pela OSB Jovem, orquestra da qual ele atualmente faz parte.
Para Valério, experiências como essas ampliam a perspectiva sobre a carreira que começou a ser construída ainda na fronteira. Em outra oportunidade internacional, ele relembrou a importância de ter conhecido novos espaços e possibilidades profissionais por meio da música. “Me deu uma visão do mundo artístico que eu ainda não tinha, me emocionei muito e vi que era realmente aquilo que eu queria para minha vida e carreira”, afirma.
“Representar o Brasil numa residência internacional é uma responsabilidade que carrego com muito orgulho, principalmente por vir de uma região de fronteira, onde essas oportunidades nem sempre chegam com facilidade. Levo comigo tudo que aprendi no Moinho, desde os primeiros ensaios até o tempo em que fui professor e chefe de naipe, e quero mostrar esse trabalho lá fora”, diz Valério.
As trajetórias de Analice e Valério também ajudam a dimensionar o papel da formação continuada oferecida pelo Moinho Cultural. Em mais de 21 anos de atuação, a instituição já beneficiou diretamente mais de 25 mil crianças e adolescentes e mantém atualmente uma formação de oito anos, que integra música, dança, literatura, tecnologia, apoio escolar e outras atividades.
Localizado em Corumbá, na fronteira entre Brasil e Bolívia, o Moinho atende participantes de Corumbá, Ladário, Puerto Suárez e Puerto Quijarro. O intercâmbio cultural entre os dois países integra a própria identidade da instituição, que mantém a Orquestra de Câmara do Pantanal como uma de suas expressões artísticas profissionais.
Para Márcia Rolon, histórias como as de Analice e Valério mostram diferentes possibilidades de continuidade para quem passa pelo Moinho Cultural. “Cada participante que passa pelo Instituto encontra um caminho diferente para seguir com a música. A Analice e o Valério mostram isso, não existe uma única forma de crescer a partir da formação que oferecemos, existe uma raiz comum que se desdobra em trajetórias distintas”, afirma Márcia.




















