Entre os dias 14 e 19 de junho, Corumbá e Ladário (MS) recebem a segunda edição dos “Dias de Campo: Resgate do uso tradicional do fogo no Pantanal”, iniciativa que adapta ao bioma pantaneiro o modelo internacional TREX (Training Exchange), criado nos Estados Unidos e aperfeiçoado em Portugal para treinamentos práticos voltados à prevenção de incêndios e ao manejo integrado do fogo em ambientes naturais.
A programação inclui rodas de conversa sobre o fogo ao redor da fogueira, palestras e uma atividade prática de queima prescrita conduzida por brigadistas indígenas Kadiwéu, com acompanhamento de equipes do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo/Ibama) e do Corpo de Bombeiros de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso.
O encontro será realizado na sede do Sebrae, em Corumbá, entre os dias 14 e 17 de junho. Nos dias 18 e 19, as atividades seguem para a APA Baía Negra, em Ladário, onde será conduzida uma queima prescrita com monitoramento técnico e rescaldo posterior. A proposta do evento é ampliar o debate sobre o uso tradicional do fogo como ferramenta indispensável na prevenção aos grandes incêndios no Pantanal.
Participam brigadistas indígenas das etnias Kadiwéu, Terena e Guató, brigadistas ribeirinhos, pesquisadores do Brasil e de Portugal, representantes do Ibama/Prevfogo, Corpo de Bombeiros de MS e MT, Ministério do Meio Ambiente, Defesa Civil, Instituto de Meio Ambiente de MS (Imasul), além de organizações que atuam no manejo integrado do fogo no bioma, como SOS Pantanal, Instituto Homem Pantaneiro, Onçafari, Ecoa, Fundação Neotrópica do Brasil e Instituto Ipê.
O nome “Resgate do uso tradicional do fogo no Pantanal” faz referência ao debate sobre o uso controlado do fogo, prática historicamente utilizada por comunidades indígenas, ribeirinhas e trabalhadores do campo pantaneiros no manejo da vegetação nativa. Durante décadas, campanhas de combate aos incêndios trataram qualquer tipo de queimada como ameaça ambiental, o que contribuiu para o enfraquecimento dessa prática em diferentes regiões do bioma.
Nos últimos anos, pesquisadores, brigadistas e comunidades locais voltaram a defender esse conhecimento tradicional dentro das estratégias de manejo integrado do fogo no Brasil. Idealizador do evento e diretor executivo do Instituto Terra Brasilis, o biólogo Reinaldo Lourival avalia que o Pantanal exige ações de prevenção efetivas e respostas rápidas. “Os incêndios cresceram em frequência e intensidade nos últimos anos. Ampliar ações de manejo integrado do fogo passou a ser uma necessidade concreta para reduzir riscos e prevenir grandes incêndios”, afirma.
Quando realizado de forma planejada, estratégica e sob condições climáticas adequadas, o uso controlado do fogo pode ajudar na redução do material seco acumulado na vegetação, diminuir o risco de grandes incêndios e auxiliar na renovação de áreas nativas e pastagens. O manejo integrado do fogo também vem sendo utilizado em diferentes países como estratégia de prevenção diante do aumento dos eventos climáticos extremos.
Com realização do Instituto Terra Brasilis, a segunda edição do evento integra as ações do projeto Vidas e Vozes Kadiwéu, desenvolvido em parceria com a Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental. O projeto atua no fortalecimento comunitário indígena e em ações ligadas à prevenção de incêndios, restauração ecológica, segurança hídrica e proteção da fauna na Terra Indígena Kadiwéu, localizada no Pantanal de Porto
Murtinho (MS).
Na primeira edição, realizada em abril de 2025 no Pantanal da Nhecolândia, em Corumbá (MS), o encontro priorizou a participação de proprietários rurais e trabalhadores de fazendas vizinhas a áreas protegidas, como o Parque Estadual do Rio Negro e reservas particulares da região. Pesquisadores apontam a Nhecolândia como uma das áreas do Pantanal com maior frequência de incêndios nas últimas duas décadas.
Para Angélica Guerra, coordenadora do projeto Vidas e Vozes Kadiwéu, o debate efetivo sobre prevenção exige envolver quem vive e trabalha no território. “Mais de 95% do bioma está em áreas privadas. Reduzir o risco de grandes incêndios passa pela construção conjunta entre produtores rurais, comunidades locais, povos indígenas, pesquisadores e poder público, especialmente depois do que aconteceu no Pantanal em 2020”.
Neste ano, o encontro foca em ampliar a participação de brigadas indígenas e comunidades tradicionais, fortalecendo a troca de experiências entre grupos que mantêm práticas históricas de uso cultural e preventivo do fogo no Pantanal. A organização também articula para 2027 uma edição inspirada no WTREX (Women-in-Fire Training Exchange), modelo internacional voltado à formação e à participação de mulheres no manejo integrado do fogo.
Para mais informações:
Assessoria de Comunicação: Alicce Rodrigues (61 99342-8085)
https://terrabrasilis.org.br/vidas-e-vozes-kadiweu




















